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Pigmalião, My Fair Lady, Chespirito e a vendedora de flores

Chapolin - A Vendedora de Flores 03O episódio “A vendedora de flores“, do Chapolin, de 1978, começa com Florinda Meza vendendo flores. Horácio GómezRubén Aguirre (Gilberto) na rua e finge o confundir com Pancho. Na verdade, tratava-se de uma forma de enrolá-lo para realizar um assalto. Gilberto pede ajuda ao Chapolin. Este recomenda que vá o ladrão vá embora e que procure uma forma decente de ganhar a vida. O ladrão, bem humorado, sai e diz “adeus, Pancho”.

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Gilberto queria que Chapolin mandasse o bandido para a cadeia, mas Chapolin não o fez pois havia chances dele se recuperar, segundo ele qualquer um pode fazer isso. Para convencê-lo, Chapolin conta a história da “vendedora de flores”.

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A história se passa na Inglaterra, pelo ano de “1890 e tantos”. O protagonista do conto, interpretado por Roberto Gómez Bolaños, estuda sobre a forma de se dizer as coisas, e encontra uma vendedora de flores. Ele julga sua linguagem como errada.

Roberto (chamaremos o personagem assim a partir daqui) gostaria de fazer uma experiência, Lisa (a vendedora) diz que já tem noivo (veja mais piadas de duplo sentido nas obras de Chespirito). Roberto dá um cartão a ela e pede para que vá num endereço. Ele quer ensiná-la a falar tão corretamente de modo que um dia, ao invés de ser uma vendedora de flores pelas ruas, ela terá sua própria floricultura.

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Roberto dá um dinheiro para ela gostar da proposta e se empenhar. Horácio interpreta o bandido desta história também e tenta roubar Roberto. Ao pedir o dinheiro, utiliza a expressão “escorrega logo essa grana“. Roberto, apesar de estudar as classes gramaticais das palavras, leva a expressão ao pé da letra e se joga no chão. Após pensar, diz “isso é o que acontece quando se segue o significado correto das palavras“, talvez fazendo uma crítica querendo dizer que, ao contrário do expresso pelo personagem, toda pessoa pode ter seu jeito de falar, devendo ser respeitadas todas as formas, e não tendo uma “correta” e outras “incorretas”.

Roberto leva Lisa ao seu palácio e a apresenta ao amigo coronel Phill Green (interpretado por Rubén Aguirre). Este pensa que “uma pessoa sem cultura jamais pode transformar-se numa bem educada“. Inclui que um velho sábio disse que “quem nasce para tostão nunca chegará a centavo“, um velho provérbio que representa sociedades estamentais, hierárquicas. Nelas, quem nascia nobre, unicamente por isso, já se garantia na Nobreza. E quem nascia “pobre”, ficava nesta categoria. Mesmo que tivesse méritos na vida, não podia pertencer à nobreza. Da mesma forma que quem nasceu na nobreza, não poderia pertencer às classes baixas, ainda que tivesse fracassos. Hoje em dia essa diferenciação social foi vencida, não há privilégios pelo poder do nascimento (ao menos não como desta forma do período do Feudalismo), ou seja, todos tem os mesmos direitos para tentar subir na vida, sem concorrer com outro que já começou “do um”.

Não encontramos o motivo deste nome, Coronel Phill Green. O Google não encontra praticamente nenhum resultado em português ao buscar o termo. Em inglês, encontrei páginas que dizem que Phillip Green é um personagem do universo ficcional Star Trek. Não sei se há relação com o personagem interpreto por Rubén Aguirre.

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Ao coronel, Roberto conta que Lisa fora encontrada nos bairros baixos de Londres. E explicita qual experiência deseja fazer: transformá-la em uma “dama da alta sociedade, refinada, culta, distinta e elegante”. Phill acha que “só nascendo de novo“, e Roberto diz que lhe falta apenas instrução.

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Roberto tem uma teoria de que podemos modificar a conduta e os modos de qualquer pessoa. Usando a Lisa como “cobaia”, começa ensinado modos de comer à mesa. Depois ministra lições de alfabetização. Há aí a velha piada do com que V ou com qual B se escreve tal coisa. Explicamos isso aqui e linkamos outro post sobre isso aqui. Lisa diz que vaca pode ser escrito com a letra B, afinal “se for pequena é bezerro“.

Após estas lições, perguntas sobre a nobreza. O episódio cita Carlos V, rei da Espanha e filho da rainha Joana, a louca. Cita também Guilherme de Orange, monarca holandês (1650-1702), filho póstumo de Guilherme II de Nassau, príncipe de Orange, e de Maria Stuart, nascido em Haia, na Holanda, e falecido em Londres [1].

Roberto também a ensina a caminhar com mais desenvoltura e elegância. O coronel vê Roberto andando como mulher para fins de exemplo e estranha a situação.

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Após seis meses, a situação se inverte: Lisa é uma dama, comentando sobre assuntos refinados, bem vestida e portando-se bem à mesa. Coronel reconhece que Roberto tinha razão. Já Roberto aparece vestido de forma diferente, sentado na escada. E responde se a tarefa de mudar a vendedora de flores custou muito trabalho: “Ah, deu muito trampo mas, essa aí é joia. Era só buquejar o que ela tinha pra fazer, estralar os ossos e pronto, tava no filó. Claro que as vezes deu furo, mas aí eu apertava o gargalo e pronto. Cadê minha mãe??“.

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Além de todo o episódio, o desfecho foi uma ótima sacada. Meio antropológico, o episódio mostra que as condições em que a pessoa vive e o meio em que ela está inserida podem condicionar a forma que ela age. E que isso pode mudar, ao entrar em contato com outra pessoa inserida em outro meio.

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Mas o episódio ainda não acabou: volta o Chapolin comentando que as pessoas podem mudar. Gilberto amplia a frase alegando que “quando alguém comete um erro, há que dar uma outra oportunidade”.

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Esse episódio foi remakeado no “Programa Chespirito”, em 1983 (assista). Nesta versão, Pancho é quem chamava o assaltado de Pancho na outra.

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Após tudo isso, chegou a hora de ver qual foi a fonte que Chespirito se inspirou para criar este excelente roteiro. “My Fair Lady” (“Minha Bela Dama” ou “Minha Querida Dama” (título no Brasil) ou “Minha Linda Senhora” (título em Portugal) é um filme estadunidense de 1964, do gênero comédia musical, dirigido por George Cukor. “My Fair Lady” conta a história de Eliza Doolittle, uma mendiga que vende flores pelas ruas escuras de Londres em busca de uns trocados. Em uma dessas rotineiras noites, Eliza conhece um culto professor de fonética Henry Higgins e sua incrível capacidade de descobrir muito sobre as pessoas apenas através de seus sotaques. Quando ouve o horrível sotaque de Eliza, aposta com o amigo Hugh Pickering, que é capaz de transformar uma simples vendedora de flores numa dama da alta sociedade, num espaço de seis meses [2].

O filme foi baseado na peça teatral Pigmalião, 1913 por George Bernard Shaw, que conta a história de uma mulher do povo transformada em mulher da alta sociedade.

E a obra teatral, por sua vez, se baseia no mito do Pigmalião que, segundo Ovídio, poeta romano contemporâneo de Augusto, era um escultor e rei de Chipre que se apaixonou por uma estátua que esculpira ao tentar reproduzir a mulher ideal. A deusa Afrodite, apiedando-se dele e atendendo a um pedido, não encontrando na ilha uma mulher que chegasse aos pés da que Pigmaleão esculpira, em beleza e pudor, transformou a estátua numa mulher de carne e osso, com quem Pigmaleão casou-se e, nove meses depois, teve uma filha chamada Pafos, que deu nome à ilha [3].

Por Victor235. Imagens: reprodução.

Referências:

[1] http://www.infopedia.pt/$guilherme-iii-de-orange

[2] pt.wikipedia.org/wiki/My_Fair_Lady

[3] pt.wikipedia.org/wiki/Pigmali%C3%A3o_%28pe%C3%A7a_de_teatro%29

Leia também:

» Saiba mais sobre a série “Chapolin” (“El Chapulín Colorado”)

» Assista o episódio “A vendedora de flores”

» O que Chespirito, George Davie e Hans Christian Andersen tem em comum?

» O que você sabe e o que não sabe sobre o Alfaiatezinho Valente

» Chespirito, Goethe, Fausto e o acordo com o diabo

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