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Chespirito, Goethe, Fausto e o acordo com o diabo

Confira neste artigo uma análise do episódio “De acordo com o diabo” (Chapolin, 1976) e suas versões “Fausto, de Goethe” e “A lenda de Fausto”. O episódio trata das consequências de se fazer um pacto arriscado e que mesmo após o erro ser cometido é possível ser salvo em caso de arrependimento.

Neste texto você encontra um resumo das três versões de Chespirito e comparações com a obra original de Goethe.

Na primeira linha da imagem: Fausto interpretado por Chespirito, respectivamente na ordem das versões citadas a cima. Na segunda linha, o momento em que ele se transforma e perde 50 anos. Na última linha, Fausto jovem.

O episódio “De acordo com o diabo” (1976), do Chapolin, começa com um inventor (Ramón Valdés) procurando um parafuso que perdeu. Ele pede para que sua filha (Florinda Meza) o ajude a procurá-lo. O pai vai procurar o parafuso na rua e orienta sua filha para que ela não deixe que ninguém entre em seu laboratório (nem mesmo seu noivo). “Lembre-se que há muitos inventores invejosos que fariam qualquer coisa afim de se apoderar de meus inventos profissionais“, ressalta.

O noivo da filha do inventor, interpretado por Rubén Aguirre, chega em sua casa e se dispõe a ajudar a procurar o parafuso, e tem a ideia de conhecer o laboratório do pai de sua noiva enquanto realiza a busca. Florinda, sem querer, permite que o noivo entre no laboratório. Por ter desobedecido o pai e permitido a entrada, ela indaga: “Oh, e agora, quem poderá me aconselhar?“. E o Chapolin Colorado aparece, de ponta cabeça, dentro da larareira: “Ue! Astúcia minha com contavam não!

O pai da noiva encontra o parafuso, mas perde-o ao cumprimentar o Chapolin. Sucedem-se perdas e reencontros deste objeto. O noivo realmente rouba as fórmulas secretas do Professor Inventivo, e diz ao Chapolin que isso pode ajudá-los a se tornar poderosos e dominar o mundo. Ele assume que o noivado foi um pretexto para ter livre acesso ao laboratório.

Chapolin bate no noivo com sua marreta biônica e aproveita para contar a ele a história do Dr. Fausto e Mefistófelis. “O Dr. Fausto era um sábio e desejava adquirir todos os conhecimentos do mundo para se tornar poderoso, e como não era muito jovem nem muito simpático, pra ser sincero, suas primeiras ambições eram a juventude e o amor de uma mulher“, começa contando Chapolin.

Essa mulher é Margarida, mulher que trabalha para para Fausto. Ele deseja se casar com ela (e neste momento há uma piada reaproveitada do Chaves: “meu coração por ti bate como caroço de abacate”, que na dublagem do Programa Chespirito foi substituída por “bate como os sinos da Igreja”). Falando na dublagem desta outra versão, o diálogo “Você poderia ter sido meu avô / Sim, mas eu não gostava da sua avó” foi substituído sem disfarces por “sim, mas eu nunca pensei em transar com a sua avó”. A versão também conta com a fala “orra meu, o que é isso?”, dita por Margarida. Outro diálogo aproveitado do “Chaves” é o de que somente os idiotas tem certeza do que dizem. Aqui Chapolin diz que “pessoas inteligentes costumam duvidar das coisas, somente os idiotas acreditam estar seguros de tudo que dizem“. Outra referência com o seriado Chaves não deixa de ser uma propaganda: Florinda utiliza no episódio uma camiseta do Chaves.

Voltando ao roteiro, Margarida não aceita o pedido de casamento porque Fausto é muito velho e ela também já tem um noivo (ou namorado). Mas comenta: “Há uma coisa que nunca esquecerei do senhor: seu bom gosto“. Fausto deseja ficar 40 ou 50 anos mais jovem, e surge em sua sala Mefistófelis (o diabo), interpretado por Ramon Valdés. Ele apresenta a Fausto o “chirrin-chirrión do diabo“, uma vareta que, acompanhada das palavras mágicas contidas em seu nome, permite que coisas apareçam e desapareçam.

Fausto ficou com sua aparência de 30 anos (embora nesta versão sua voz continuou como a de um idoso), e também quis a vareta do diabo. Para isso, sequer refletiu nas consequências e assinou um contrato de Mefistófelis, que sai de cena após dizer “conste que você quis assim“. Fausto, com o “chrrin-chirrión”, faz com que Margarida apareça em sua sala e a convida para jantar.

Contudo, o “chirrin-chirrión do diabo” acabou não tendo importância para Fausto, e quando ele percebe isso, surge Mefistófeles com a frase “mas para mim sim, serviu para te levar para o inferno“. Era isso que dizia o contrato que Fausto assinara.

Mas ele consegue se safar com os dizeres “contrato, chirrión!“, assim sendo tudo perde a validade. Foi uma adaptação para que o final do episódio ficasse engraçado e para servir como lição que, reconhecendo que o pacto com o diabo, além de arriscado, não teve utilidade, Fausto deixou de ir ao inferno, mas ficou “sem a garota, sem dinheiro, sem poder, sem nada“.

A imagem volta à casa do cientista, e Chapolin ensina outra lição aos seus telespectadores e ao noivo: Fausto só se salvara porque se arrependeu. O noivo diz também estar arrependido. Então, surge o cientista com um invento idêntico ao “chirrin-chirrión”, sendo que “falta saber pra que serve”. Isso assusta Chapolin e o noivo, que acabaram de contar e ouvir a história do Dr. Fausto.

Outra cena que podemos contar como lição neste episódio de iluminação escura é a frase “Este idiota, chirrión!“, que Fausto diz para que o amor de Margarida suma. Mas quem some é o próprio Fausto, que foi idiota por fazer um pacto com o diabo.

Como é de se imaginar, o conto do Dr. Fausto realmente existe. Trata-se de um poema trágico do escritor alemão Goethe. É considerado uma das grandes obras-primas da literatura alemã. A criação da obra ocupou toda a vida de Goethe, ainda que não de maneira contínua. A primeira versão foi composta em 1775, mas era apenas um esboço conhecido como Urfaust (Proto-Fausto). Outro esboço foi feito em 1791, intitulado Faust, ein Fragment (Fausto, um fragmento), e também não chegou a ser publicado [1].

A versão definitiva só seria escrita e publicada por Goethe no ano de 1808, sob o título Faust, eine Tragödie (Fausto, uma tragédia). A problemática humana expressada no Fausto foi retomada a partir de 1826, quando ele começou a escrever uma segunda parte. Esta foi publicada postumamente sob o título de Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten (Fausto. Segunda parte da tragédia, em cinco atos) em 1832 [1].

Além da história, o próprio Fausto realmente existiu. Johann Georg Faust (1480 – 1540) foi um alquimista, astrólogo e mago da época do Renascimento alemão. Sua vida inspirou os contos populares sobre o Doutor Fausto que foram adaptados a várias obras literárias a partir dos anos 1580, entre as quais figuram a peça de teatro A Trágica História do Doutor Fausto do inglês Christopher Marlowe (1604) e o drama de Johann Wolfgang von Goethe, “Fausto” (1808). [2]

Considerado símbolo cultural da modernidade, Fausto é um poema de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles, que o enche com a energia satânica insufladora da paixão pela técnica e pelo progresso. [3]

Roberto Bolaños se baseou na primeira parte da obra para produzir sua versão do conto de Fausto. É esta parte dela que contem o enredo romântico e a vontade de Fausto de ter a juventude a seu favor. Na obra de Goethe, Mefistófeles não surge do nada, e sim, da transformação de um cão que seguia Fausto e seu assistente Wagner pela rua. Os dois chegam ao acordo – selado com sangue – de que Mefistófeles fará tudo o que ele quiser na Terra e, em troca, Fausto terá de servir o demônio no Inferno. Mas há uma cláusula importante: a alma de Fausto será levada somente quando Mefistófeles crie uma situação de felicidade tão plena que faça com que Fausto deseje que aquele momento dure para sempre [1].

No conto de Goethe, Fausto não conhecia Margarida. Ele a conhece quando já está com aparência jovem. Outos acontecimentos se sucedem na obra original e Margarida perde sua mãe e fica desesperada, chegando ao ponto de afogar seu filho recém-nascido e ser condenada à morte pela justiça. Fausto sente-se culpado por isso e acusa Mefistófeles, que replica que é Fausto quem tem toda a culpa. O demônio consegue a chave da cela de Margarida e Fausto tenta fazer com que ela escape, mas ela resiste porque percebe que ele já não a ama. Ao ver Mefistófeles, Margarida grita “Meu Deus, toda me entrego a teu juízo!“. Mefistófeles tira Fausto da cela e diz que “Foi julgada!“. Em seguida, um coro celestial afirma “Salvou-se!“, indicando que a pureza de Margarida salvou sua alma [1]. Na versão chapolinesca, Fausto se cura por arrepender-se do pacto feito com o diabo.

Chespirito ainda trata deste assunto no episódio 166 do Programa Chespirito, de 1994, este sem o Chapolin no roteiro. Trata-se de uma adaptação livre de Bolaños para o clássico Fausto, de Goethe. Nesta versão, Fausto (que aqui não tem aparência tão velha) também é interpretado por Chespirito, e Margarida é interpretada pela atriz Paulina Gomez. Mefistófeles é interpretado nesta versão por Rubén Aguirre.

O nome da vareta nesta versão, dublagem do “Clube do Chaves“, é pronunciada como “chirrin-chirrón“. O remake ganhou a piada inédita da caneta, que aparece para que Fausto assinasse o contrato, sendo que na época em que se passa o conto ela ainda não havia sido inventada. Fausto assina o contrato nesta versão mesmo sabendo que em baixo da onde assinou constava a palavra “condenado“.

Há também uma versão inédita, “A lenda de Fausto” (“Fausto el emperador”), lançada no Brasil nos extras do Box IV (Chaves) dos DVDs da Amazonas Filmes. Nesta versão, Margarida é interpretada por Maria Antonieta de Las Nieves.

Essa versão, que foi dublada de maneira muito parecida com a versão do “Chapolin”, também conta com Rubén Aguirre no papel de Mefistófeles. Ele também fez este papel na versão de 1994.

Para quem tem curiosidade, a obra original traduzida está disponível na biblioteca digital “Domínio Público”, em português. 400 pagininhas para quem quiser aproveitar as férias:  http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2650

Por Victor235

Referências:
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto_%28Goethe%29
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Georg_Faust
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto

» CH na mídia: citação CH no site “101 horror movies”

Leia também: O que você sabe e o que não sabe sobre o Alfaiatezinho Valente

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13 Comentários

  1. Giovani Chambón

    Ótima matéria, parabéns.
    Estou inclusive revendo “a lenda de fausto” que há tempos não via 😉

    • victor235

      Obrigado, Chambo.

  2. Muito boa mesmo, os textos sobre episódios do Chapolin estão muito legais. Esperando mais!

    • victor235

      Obrigado, Alan. Já tenho ideias para mais artigos, vou continuar com esse esquema de quando ter uma inspiração e tempo fazer novos textos.

  3. Felipe Larios

    Muito bom o texto e as referências a Goethe. Vou rever o episódio! abç!

    • victor235

      Obrigado. Quando publicar mais algo sobre Chespirito em seus blogs é só comentar aqui que divulgamos 😉

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